Microcosmo dos Álbuns em Inglês - Verge of Love (Yoko Oginome)

Vários artistas japoneses dos anos oitenta tentaram em algum momento fazer álbuns que pudessem de alguma forma conseguir projeção internacional. A conclusão que alguns executivos chegavam era de que a melhor forma de fazer isso era lançando um álbum em inglês.

Alguns esforços, como os de Seiko Matsuda, que contei em um post anterior, até conseguiram alguns frutos. A maioria, porém, acabava fazendo mais sucesso no próprio Japão do que nos outros territórios em que eles eram lançados.

Vale ressaltar, porém, que os lançamentos em inglês não eram feitos exclusivamente, e na maioria das vezes nem especificamente, para o mercado americano como muitos pensam. 

A superestrela Akina Nakamori teve um álbum em inglês em 1987 chamado "Cross My Palm", que de fato teve um lançamento apagado pela Atlantic Records nos EUA em 1989. Vendo o histórico de lançamentos, porém, podemos ver para quais mercados esses lançamentos eram primariamente focados:

No fim das contas, o Japão é um país culturalmente influente, mas é o único com sua língua. Os lançamentos em inglês acabavam fazendo sucesso no próprio Japão, mas também em outras regiões da Ásia, como Hong Kong, Singapura e países do sudeste asiático (como a Malásia).

Talvez seja um pouco contraintuitivo, porque nenhum desses países também fala inglês nativamente, mas já eram territórios onde a música americana já era bem conhecida. Não havia muita resistência para com as músicas em inglês, comparada às músicas em japonês. 

Até hoje é meio assim, não é? As pessoas, no geral, acham normal você ouvir música em inglês mas ouvir música em qualquer outro idioma (que não seja o seu nativo) quase sempre gera alguns olhares estranhos.

Dentre todos esses álbuns, um dos que mais sempre me chamaram a atenção foi o álbum "Verge of Love" da Yoko Oginome. Há muitas camadas interessantes nesse álbum, e elas vão um pouco para além da música. Vamos falar um pouco dele, porque ele é um ótimo microcosmo do que eram esses álbuns em inglês da época - e "Verge of Love" talvez seja um dos melhores do conjunto todo.

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Àquela altura a Yoko Oginome já era uma estrela, e não era de forma alguma uma novata. Na verdade, "Verge of Love" viria a ser seu nono álbum, com apenas dezenove anos de idade (ela fez vinte anos dias antes do lançamento do álbum). 

Tudo isso em um espaço de cerca de quatro anos. Quatro anos em que vimos a coitada da Yoko tendo que tirar foto de lado pra esconder um pouquinho o estrabismo que ela tinha, e trabalhar bem duro para alcançar o sucesso que ela eventualmente encontrou. Ela teve alguns lançamentos bem notáveis durante esse período, além de alguns hits bem lembrados como "Dancing Hero" e "Flamingo in Paradise".

Assim como a grande maioria das idols, quase sempre há dúvidas quanto às suas habilidades reais. Sempre tive a impressão da Yoko ser uma boa cantora, de fato, mas os álbuns anteriores não davam muito espaço para que isso aparecesse tanto assim. Embora eu goste dos outros álbuns, vários deles têm uma sensação de ambiente controlado.

Por isso, para "Verge of Love", eles decidiram levar o álbum para um tipo diferente de produção. Eles deixaram um pouco de lado o tradicional kayokyoku e o eurodance característico das músicas da Yoko até então, e decidiram se unir com novos produtores americanos.

Foto: Passtime Records

O produtor escolhido foi Narada Michael Walden. Os caminhos que os levaram até ele são um pouco difíceis de traçar. Esse é um nome de produtor que talvez não salte aos olhos, mas quase todo mundo conhece ele indiretamente. Ele é um dos produtores da trilha sonora do filme The Bodyguard, que atualmente é a trilha sonora mais vendida da história, além de ter trabalhado em diversos lançamentos de artistas como Aretha Franklin, Whitney Houston e Mariah Carey, somando ainda participação no trabalho de muitos outros músicos. É vencedor de três Grammy Awards.

Em uma entrevista durante o relançamento do álbum (na ocasião, da versão em japonês), foi comentado que Walden havia gostado muito da voz da Yoko, e chegou a adiar os seus trabalhos com outra artista (Barbara Streisand) para gravar com ela [1].

A minha experiência com esse álbum é um pouco engraçada, porque a primeira música que ouvi foi "Postcard from Paris", que talvez seja a música mais famosa ao lado de "Verge of Love" e "Is it True". 

A letra da música tem o trecho:

" This is my calling / Esse é o meu chamado

My one big chance / A minha grande chance

So boy can't be late / Então garoto, não posso me atrasar

Can't trans-atlantic date / Não posso namorar através do atlântico

Destination france / Destino França"

E bem, se você já olhou o mapa alguma vez, sabe que não dá para atravessar o Atlântico rumo à França pelo Japão, que é banhado completamente pelo Oceano Pacífico. Eu imaginei então, que essa música havia sido escrita para alguma artista americana e eventualmente dada para a Yoko.

Embora se soubesse das ligações de Narada com Whitney Houston, só depois de um bom tempo foi surgir na internet uma demo dessa música na voz da Whitney. A composição é de outro grande nome da música, Preston Glass. Essa versão Demo já é razoavelmente parecida com a versão final que vemos no álbum da Yoko Oginome. 


Talvez a dúvida seguinte seja: A Yoko Oginome fala inglês para começar?

A maioria dos artistas que se arriscaram a fazer álbuns em inglês não falavam inglês. O caso da Yoko é meio misto, porque ela aparentemente sabe alguma coisa, mas não o suficiente para falar fluentemente e muito menos para cantar.

Ela tinha um blog na década passada, que foi ativo até aproximadamente 2020, e lá ela chega a comentar um pouco das habilidades dela em inglês [2]:

"Durante meu tempo de escola, meu pai trabalhava com as Nações Unidas, e eu admirava ver ele interpretando. No fim, eu acabei em uma profissão completamente diferente. Apesar disso, é verdade que eu não tenho muita habilidade em inglês, eu não tenho medo de ir para países estrangeiros, porque eu tenho uma certa coragem"

Que o pai dela trabalhava em alguma coisa relacionada às Nações Unidas como intérprete é novidade para mim com toda certeza. Esses posts de blog são sempre um tesouro. O post é de 2010, então acho que dá pra ter certeza que não era muito melhor vinte anos antes. 

Yoko Oginome com Michael Narada Walden

Por fim, o álbum era gravado na base do treino e da memorização, e do pouco inglês que a Yoko sabia. Esse processo acabou tendo uma situação inversa meses depois. [3]

Em uma entrevista dada ao DJ OSSHY em 2019, a Oginome falou um pouco mais dessa colaboração. Ela chama o Narada de um dos melhores produtores do mundo na época e comenta como ficou tremendo ao entrar no estúdio. Ela também fala um pouco desse processo de memorização, além de como eles incentivaram ela a cantar fora da zona de conforto durante as gravações.

Um detalhe bem fácil de deixar escapar é que ela comenta que quando recebeu uma das demos das músicas, ela perdeu totalmente sua confiança, porque a voz da demo era muito boa. Eu até pensei por um momento que poderia ser a versão que vimos mais acima da própria Whitney, mas ela complementa dizendo que era alguém não tão conhecido assim. [3]

O álbum foi escrito originalmente em inglês, mas ele também foi lançado meses depois em uma versão completamente em japonês. Apesar disso, eles decidiram repetir a produção, indo até San Francisco para gravar essa nova versão. Para encaixar as músicas na métrica, o produtor Narada Walden teve que se basear em uma versão escrita em romaji das letras.

Yoko Oginome com Michael Narada Walden

Como mencionado, o álbum também teve como foco de lançamento as mesmas regiões já citadas anteriormente. Japão, Hong Kong, Singapura e Malásia - ou seja, esse sequer teve lançamento no ocidente, mesmo tendo sido gravado em inglês em San Francisco.

Como curiosidade, o tecladista responsável pelo sintetizador, é o músico Walter Afanasieff, que é brasileiro de nascença, embora tenha crescido nos EUA. A produção mais famosa em seu nome é sem dúvida a música tema do filme Titanic. Acho que dá para dizer que o álbum tinha uma grande variedade de músicos bem talentosos.

Outro detalhe curioso, que infelizmente você (e eu também) perderíamos só ouvindo o álbum nas plataformas digitais, são alguns agradecimentos que estão no verso da versão em LP do álbum. 


Além da Yoko estar linda na capa e contracapa desse disco (uma outra foto desse ensaio foi usada na coletânea de melhores dela eventualmente), ele possui algumas palavras de Narada Walden [5]

"Agradecimentos especiais:

Querida Yoko, trabalhar com você me deu uma profunda alegria. Sua grande dedicação, disciplina e grande vocalização, são uma inspiração para mim.

Um profundo amor, Narada.

P.S. A vida é uma moleza!"

Acho que é um grande elogio vindo de uma pessoa que trabalhou com tantas pessoas talentosas e ditas estrelas.

É justo dizer que esse talvez seja um dos mais importantes trabalhos da Yoko até mesmo na opinião dela. Em diversos comentários ela fala de como tudo era bem diferente nos processos de gravação entre os EUA e o Japão. Na pequena descrição da sua carreira em seu site oficial, Narada Michael Walden é citado - mesmo ela tendo outros vinte e oito álbuns para citar. [4]

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Sobre o álbum em si: ele é bem sólido.

Há bem pouco dos álbuns anteriores da Oginome neste. Ainda há um pouco de dance em algumas faixas, mas o Eurodance característico dá lugar a algo mais próximo ao R&B e pop-americano daquele período.

A pronuncia da Oginome em inglês é realmente boa. Talvez um nativo perceba mais defeitos, mas sinceramente, há bem pouco para criticar para alguém que sequer falava o idioma. 

Músicas como "You Take It All Away" e "Postcard from Paris" são os grandes resumos da obra toda. Melodias sempre sóbrias, um tanto quanto elegantes e por vezes calculadas, de uma maneira positiva. Há sempre um bom complemento na parte eletrônica da música, sempre com bons complementos da parte instrumental. Esses complementos podem ser um clichê saxofone, ou baterias bem marcadas e até certas distorções em instrumentos já conhecidos.

Combine tudo isso com refrãos bem medidos, bem cativantes e backing vocals com uma presença sempre importante. Se você como eu também gosta dos vocais da Oginome, esse álbum certamente é a pedida certa. A Oginome de "CD Rider", álbum anterior, e "Verge of Love" parecem cantoras com anos de diferença, mesmo que a diferença real seja de apenas alguns meses. "Verge of Love" tem vocais sussurrados, mas também tem os vocais tradicionais da Yoko, mas com uma profundidade que acho que ela ainda não tinha encontrado na própria voz até então.

Talvez mais surpreendente seja que a Yoko ainda soa bastante como ela mesma em inglês. Isso é algo bem difícil para muitos cantores. A conversão de idiomas raramente é 1 para 1 na maioria dos casos. Ouvindo a versão em inglês de "Verge of Love", você está ouvindo a Yoko Oginome sem truques. No máximo algumas sílabas mal pronunciadas.

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Referências:

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